Escritora revela detalhes de trilogia ambientada na Chapada Diamantina

Esqueça banhos em águas azuis ou caminhadas pelas grutas. As cavernas da região agora guardam outra atração – viagens no tempo. É essa a aventura que Christiane de Murville promete aos seus leitores.
Rair Oliveira

Aos 56 anos, a doutora em Psicologia Clínica Christiane de Murville experimenta o sucesso de sua trilogia, A Caverna Cristalina, que foi lançada em 2015 e desfruta de repercussão internacional. No último final de semana (13 e 14/10), a autora participou de um evento literário na Paraíba - o Mulherio das Letras -  e conversou com O Bambúrrio sobre suas influências, inspirações e expectativas. Num papo descontraído, ela revela que é fã de O Pequeno Príncipe e que pode voltar a escrever sobre a Chapada Diamantina.

Escritora Christiane de Murville. Foto: Reprodução

A Caverna Cristalina não é a sua primeira expedição literária. Antes da saga de Samuel, a senhora já havia publicado outras obras. Quando aconteceu esse despertar para a literatura? Quem são seus autores preferidos?

Antes de A Caverna Cristalina, escrevi alguns artigos acadêmicos, fiz mestrado e doutorado em Psicologia, sendo que a minha dissertação de mestrado foi publicada pela editora Casa do Psicólogo. Nunca pensei em ser escritora, mas aos poucos foi brotando em mim a vontade de compartilhar algumas reflexões sobre a vida, o mundo no qual vivemos e o que percebemos dele, abordando temas diversos ligados à ciência e espiritualidade. Achei que poderia fazer isso apresentando ao leitor um texto leve, descontraído, fluido e agradável de ler, em um cenário encantador e com uma trama instigante. Assim, imaginava capturar a atenção dos leitores, convidando-os a me acompanhar nessa aventura no tempo com o grupo do professor Samuel.

 Alguns livros que me marcaram foram: O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry; Fernão Capelo Gaivota, de Richard Bach; Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos. Também gostei muito de ler O Físico, Brumas de Avalon, Operação Cavalo de Tróia, O Código Da Vinci, os contos de Machado de Assis e muitos outros que agora não me vem à mente.

Livros sobre a Chapada Diamantina são raros. Os poucos autores da região abordam sempre aspectos memorialísticos do lugar. A senhora é a primeira a ir além, a escrever uma trama fictícia, a inovar nesse sentido. Quando surgiu o interesse em escrever sobre a Chapada Diamantina?

Achei que um cenário de chapadas seria perfeito para a história que eu imaginava escrever. Existem três regiões de chapadas muito lindas no Brasil: a Diamantina, a dos Guimarães e a dos Veadeiros. Conheço a Chapada dos Guimarães e a dos Veadeiros. No entanto, confesso que nunca fui à Chapada Diamantina, apesar de ter passado vários meses com os meus pensamentos em Igatu e arredores enquanto escrevia os livros. Também não tenho parentes e tampouco conheço alguém que more na região, por isso a minha grande alegria em me comunicar com vocês, que são justamente da Chapada Diamantina!

Li muito a respeito da Chapada Diamantina, que logo percebi que seria o local perfeito para as aventuras dos viajantes do tempo. Igatu também chamou a minha atenção por igualmente apresentar uma história superinteressante, tendo sido uma cidade populosa no passado, com cassino, vilas de escravos, coronéis, comércio intenso e restringindo-se hoje a um povoado de poucos habitantes, que basicamente vive do turismo. Esses diferentes momentos históricos da vila de pedra, com seus respectivos cenários e características da época, me permitiram criar uma trama com idas e vindas no tempo, apresentando ao leitor diferentes registros emocionais, eventualmente sintonizados ao longo da vida, níveis de percepção e consciência da realidade pelos quais podemos transitar, conforme desejos, pensamentos e intenções emitidos. Também descobri diversas lendas que circulam na região, que ajudaram a tornar o meu texto ainda mais rico e interessante. A vila de Igatu, ou Xique-Xique de Igatu, é também conhecida como a Machu Picchu baiana e existem suposições sobre ligações com outras civilizações e realidades, eventualmente se dando através de portais que se formam na Chapada, em poços cristalinos ou cavernas sagradas, capazes de levar as pessoas para outras dimensões ou tempos. Não poderia haver local mais apropriado para as aventuras do grupo do professor Samuel!

Trilogia escrita por Christiane de Murville. Foto: Reprodução

A Caverna Cristalina apresenta uma sólida pesquisa histórica e geográfica da região. Quais foram as principais fontes utilizadas pela senhora para reconstituir de maneira tão bem-sucedida esse passado?

Fui numerosas vezes à biblioteca da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo para pesquisar sobre a Chapada Diamantina, sua formação geológica, história, o turismo na região e manifestações culturais. Até encontrei ali uma tese: A região das lavras baianas, de Carlos de Almeida Toledo, que descreve as relações entre os coronéis, senhores de terra e os escravos, depois homens livres, desde o apogeu da mineração na região até o seu declínio e a decadência que se abateu sobre Igatu. Porém, também realizei várias pesquisas por internet, procurando fotografias, mapas e informações diversas a respeito da Chapada Diamantina e de Igatu, aprendendo sobre pontos turísticos, instituições locais, fauna e flora.

Também é marcante a presença de elementos espirituais e místicos – que são comuns na Chapada – em alguns trechos dos livros. A senhora é adepta de alguma religião? Acredita que realmente há algo de mágico e transcendental na Chapada Diamantina?

Não sigo nenhuma religião, mas admiro grandes mestres que deixaram exemplo de conduta impecável e mensagens importantes para a humanidade. Acredito que a magia está por toda parte. Sei que ambientes com alta concentração de cristais apresentam uma vibração diferente, mais acelerada e vibrante. Quando estive na Chapada dos Veadeiros, reparei nisso logo que cheguei lá, ainda me aproximando pela estrada que leva a Alto Paraíso de Goiás. Sentia essa vibração no meu corpo, como descrevo através da personagem Marion. Mas depois de alguns dias, essa sensação de tudo vibrando mais intensamente passou, como se tivesse me acostumado a ela ou entrado em sua sintonia. Certamente, há algo de especial nessas regiões com alta concentração de cristais. Paira no ar uma energia diferente, revigorante, que reveste tudo e todos de uma aura mais leve e brilhante.

A Chiado é muito conhecida fora do Brasil. Como foi a recepção do livro pela editora? A história foi concebida desde o início para ser uma trilogia ou isso surgiu com a repercussão das obras?

A editora Chiado me acolheu muito gentilmente, aceitou prontamente publicar a trilogia. Quando entrei em contato com a editora Chiado, eu já havia publicado os dois primeiros volumes de A Caverna Cristalina de modo independente um ano antes. Mas quando o terceiro volume ficou pronto, achei que deveria procurar uma editora para lançar a trilogia completa.

A história não foi concebida desde o início para ser uma trilogia. Ao terminar os dois primeiros volumes de A Caverna Cristalina, achei que tinha acabado a história dos viajantes do tempo da Chapada Diamantina. Até me dediquei à escrita de outro livro, o A vida como ela é, que lancei um pouco depois, também de modo independente. Porém, depois de ler os dois primeiros volumes de A Caverna Cristalina, um leitor me perguntou onde estava o terceiro volume, me incentivando a continuar a escrever e completar a trilogia. Pensei no assunto e, aos poucos, foram surgindo as ideias para dar continuidade à aventura na Chapada Diamantina.

A trilogia também já foi lançada em Portugal e na França. Como os europeus têm reagido à história?

Não sei dizer como está sendo a reação dos portugueses à história do A Caverna Cristalina.  Acho que a trilogia ainda não é muito conhecida por lá. Tive apenas um ou outro retorno de leitores portugueses. No entanto, sempre positivos. Acabei até conhecendo uma pessoa de lá que já esteve na Chapada Diamantina e que gostou muito dos meus livros.

Já na França, saíram várias resenhas bacanas, gentis e elogiosas a respeito dos meus livros. Inclusive, em julho deste ano, por sugestão de uma blogueira literária de lá, participei de um salão de livros que ocorreu no castelo “Le Dormant”, próximo à cidade de Reims, não muito longe de Paris. Também tenho família e conhecidos na França e recebi cartas, e-mails e mensagens diversas muito legais de parentes e amigos que leram meus livros. Noto que o cenário da Chapada Diamantina, com um histórico interessante, sua formação geológica atípica, com ouro, diamantes, pedras preciosas e cristais diversos, fauna e flora exuberantes, atrai profundamente o leitor europeu, que fica encantado com as belezas da região. Sem dúvida, a trilogia A Caverna Cristalina contribui para a divulgação da região e de seu turismo. Sei de gente que disse estar de malas prontas para a Chapada Diamantina depois de ter lido os meus livros!

Tem novos projetos em mente? Podemos esperar mais alguma aventura ambientada na Chapada?

Sim, tenho novos projetos em andamento. Acabei de escrever outra história, que acredito será publicada em dois volumes. Assim que a revisão do texto dessa nova obra estiver encerrada, pretendo apresentá-la à editora Chiado para publicação no Brasil, em Portugal, e, mais adiante, na França. Ainda gostaria de relançar o A vida como ela é, também pela Chiado, se a editora topar. Quem sabe, junto com esse próximo novo livro que está para sair.

O livro que acabei de escrever e o A vida como ela é não se passam na Chapada Diamantina. No A vida como ela é, porém, há uma referência clara à série A Caverna Cristalina. Quem sabe, algum dia, ainda saia outra aventura ambientada na Chapada Diamantina ou interligando personagens de diferentes histórias que escrevi?


Ilustração de Rair Oliveira.

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